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Teresópolis no milenar Caminho de Santiago de Compostela

Data: 12/06/2019

Marcello Medeiros

MOCHILEIRO – Marcello Medeiros

Em algum momento da vida você pode ficar desacreditado. Pode perder a confiança e autoestima, enfrentar desertos que parecem não ter fim mesmo tendo um quintal florido diante dos seus olhos. Grandes vitórias em um mundo que se mostra tão desigual e maldoso não parecem ser suficientes para continuar lutando. Nesses momentos, é preciso se agarrar a alguma coisa, buscar um rumo que ajude a abrir os olhos para retomar as batalhas – que na verdade nunca terão fim. E, para muita gente, uma fórmula quase que mágica para recolocar a vida nos trilhos é a busca pela espiritualidade e reconexão com tudo que está à sua volta. Diante dessa necessidade, muitos acabam chegando ao milenar Caminho de Santiago de Compostela, uma rota de peregrinação fortemente ligada à história do cristianismo e que hoje vai muita além da religião: Leva anualmente milhares de pessoas até a cidade de mesmo nome na Espanha em busca de um encontro com o inexplicável. E foi isso que aconteceu comigo. Precisava encontrar um novo caminho e busquei nos 934 quilômetros percorridos de bicicleta entre o Sul da França e o Norte da Espanha em maio passado. Passei por muitas experiências com analogias diretas aos acontecimentos da vida, histórias que serão contadas aqui em alguns capítulos, pois é impossível resumir a uma coluna o espetacular Caminho de Santiago.

O Caminho
Declarado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, o Caminho de Santiago de Compostela é a peregrinação mais conhecida do mundo, percorrida desde a Idade Média. 
Conta a história que Tiago era um dos discípulos mais próximos de Jesus e que esteve presente em momentos importantes da sua vida. Após a morte de Cristo, ele começou a peregrinar e espalhar a sua palavra uma antiga rota pagã, utilizada anteriormente por Napoleão para invadir a Espanha. De regresso a Jerusalém, foi decapitado pelo Rei Herodes, e seus restos mortais foram levados de volta à Espanha por dois de seus seguidores e enterrado na Galícia.
Em princípios do milênio atual, continua a lenda, um camponês chamado Pelayo, guiado por muitas estrelas, encontrou em um grande campo a sepultura do apóstolo. A notícia correu mundo, lançando uma legião de cristãos a peregrinar até Santiago de Compostela, cidade que se formou na região. “Compostela” provém de campo de estrelas.
Desde então multidões de peregrinos, de anônimos a famosos, vêm percorrendo este caminho mágico, o único no mundo que não se formou por motivos comerciais. Mais de 1.200 anos depois, o roteiro já não tem mais uma pegada tão religiosa, mas espiritual e também cultural e turística. E a procura é cada vez maior pela magia do Caminho, pelo encontro com si mesmo, pelos aprendizados com a semelhança com a vida e a troca de experiências com tantos que têm a mesma essência em várias partes do mundo.

Os caminhos do Caminho
Quando se fala na rota jacobeia, a maioria das pessoas acredita se tratar de somente uma. Porém, são dezenas que levam até a cidade de Santiago de Compostela, a partir da França, várias regiões da Espanha e Portugal. Há quem diga ainda que “o Caminho pode começar na porta da sua própria casa, a partir do momento que você decide fazê-lo”. A mais famosa delas, e que recebeu o citado título da UNESCO em 1993, é a que tem início em Saint-Jean-Pied-Port, no Sul da França. São aproximadamente 800 quilômetros até a Praça do Obradoiro, passando por diferentes regiões e consequentemente terrenos. E foi esse o caminho escolhido por mim, o tradicional Francês.

A opção pelas duas rodas
A grande maioria das pessoas que busca algum dos caminhos, mais de 90%, segue até Santiago a pé – os peregrinos. Em segundo estão os ciclistas - os bicigrinos. E foi nessa categoria que me encaixei. Desde menino tinha vontade de colocar uma bicicleta na estrada, sentir o vento no rosto e ter a possibilidade de vivenciar melhor uma viagem. Quando descobri o Caminho de Santiago e sua magia, soube imediatamente que era isso que precisava naquele momento.

A preparação
Pedalo desde menino e me dedico ao montanhismo e escalada há 21 anos, ou seja, sou bastante ativo. Porém, para realizar bem meu objetivo, iniciei uma preparação específica para o mountain bike. Foram aproximadamente seis meses de longas e duras pedaladas por rotas que já conhecia e outras que acabei descobrindo em nossa região nessa etapa. Me preparei para “sobrar fisicamente” em Santiago, deixando para a cicloviagem apenas a missão de crescer espiritual, emocional e culturalmente.

A bicicleta
Muitos que fazem o Caminho em duas rodas alugam a bicicleta por lá. Porém, o preço é salgado e você pode receber um equipamento que não está acostumado ou que não terá certeza se vai atender sua expectativa. Por isso optei em levar a minha companheira de aventuras, já atualizada de acordo com as minhas necessidades. Mesmo pagando uma taxa para despachar, sai muito mais em conta. Além disso, tive o apoio do pessoal da Cycle São Cristóvão para fazer uma revisão geral antes da viagem e diminuir a chance de problemas. Outra grande dica, levando a sua ou alugando uma bike, é saber pelo menos o básico de mecânica e levar alguns materiais que podem ser necessários em reparos. Em vários momentos você irá passar por trechos sem nenhum tipo de ocupação humana, consequentemente não havendo a possibilidade de um resgate ou auxílio.

Como chegar
A principal cidade base na Espanha para o Caminho é Madrid. De lá é possível seguir de trem até uma localidade vizinha a Saint-Jean ou fazer mais um trecho de avião. Nessa segunda possibilidade, escolhida por mim, o viajante segue até Pamplona e lá pode pegar um ônibus (Que custa 22 Euros a passagem) ou, se encontrar com outros peregrinos/bicigrinos, dividir um táxi até o Sul da França. Essa última etapa da viagem dura aproximadamente 1h30.

Hora de pedalar
Para facilitar a logística da primeira etapa, já deixei reservado o albergue em Saint-Jean-Pied-Port. Mesmo com o cansaço da viagem, devido as conexões em avião, táxi e ônibus, montei a bicicleta no mesmo dia. Só bem tarde fui descansar para iniciar a realização do grande sonho da cicloviagem. Quando o despertador tocou (no caso o recepcionista da hospedaria com um sino) tive que acelerar para tomar café, arrumar a bagagem e partir. Por conta do cansaço, ampliado pelos dias sem dormir devido a ansiedade, havia perdido a hora. Mas me encontrava cada vez mais com a certeza da realização no mágico “Chemin de Saint-Jacques”.
Antes de enfrentar o primeiro desafio é preciso passar na associação francesa do Caminho, carimbar a credencial, que garante a identificação como bicigrino e acesso aos albergues, e adquirir a concha de vieira, um importante símbolo da rota de peregrinação. Falando nisso, você pode sair do país já com grande parte dessa documentação graças ao excelente trabalho realizado pela Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (https://www.caminhodesantiago.org.br/ ), que trata com muito carinho e atenção todos os interessados na milenar rota.
Ah, você pode estar se perguntando o motivo de falar em 934 quilômetros, se a distância até a catedral do apóstolo é de aproximadamente 800. Bom, isso é assunto para os próximos capítulos... Na próxima semana, vou falar sobre os Pirineus, Roncesvalles e Pamplona – as duas primeiras etapas dessa aventura espiritual. O projeto “Teresópolis no Caminho de Santiago de Compostela” teve o apoio do jornal O Diário de Teresópolis, Trilhas & Rumos, Loja Topspin, Corpo & Ação e Cycle São Cristóvão.

CRÉDITO E LEGENDAS

Acervo Mochileiro – Marcello Medeiros


Tendo como cenário de fundo, e de muitos treinamentos, a espetacular Serra dos Órgãos, ainda na preparação e expectativa para a grande cicloviagem

 


Desde menino sonhava em colocar a minha bicicleta na estrada e viajar... Devagar, sentido o rosto no vento e parando sempre que quisesse conhecer algum lugar

 


Em Saint-Jean, o símbolo do “Chemin de Saint-Jacques”, o Caminho de Santiago, indicando a direção que deve ser seguida pelo peregrino – ou bicigrino, no meu caso

 


Sede da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago em Saint-Jean-Pied-Port, onde são fornecidas a credencial, a concha de vieira, mapas e outras informações aos peregrinos


A credencial identifica a pessoa como peregrino e dá direito ao uso dos albergues. É preciso ir carimbando nesses locais, templos religiosos e até estabelecimentos comerciais. Ela também é usada como comprovação da peregrinação e emissão de um certificado de conclusão – a Compostela

 


Na França, além das conchas de vieira (símbolos em amarelo) a identificação da rota a seguir é feita com as pequenas marcas horizontais em vermelho e branco. Há também muitas placas no trajeto até o alto dos Pirineus

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