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Dos Pirineus a Pamplona, as primeiras belezas e desafios

Data: 27/06/2019

Os Pirineus, região de montanha que divide França e Espanha, é um dos mais bonitos e difíceis do Caminho por conta do grande desnível do terreno. Muitos que fazem a pé costumam dividir esse trecho em dois, ficando em Orrison

Na primeira reportagem da série sobre o espetacular Caminho de Santiago de Compostela falei sobre a origem dessa milenar rota de peregrinação, suas variações, a preparação física e como chegar a Saint-Jean-Pied-Port, onde tem início a rota francesa – escolhida por mim entre as muitas possibilidades que levam até a catedral em homenagem ao apóstolo Tiago Maior. Agora começo os relatos sobre as 15 etapas de aventura e busca pelo equilíbrio espiritual percorrendo trilhas e estradas frequentadas há séculos por milhares de pessoas com o mesmo objetivo. Nos dois primeiros dias, foram 72 quilômetros entre a pequena cidade no Sul da França e Pamplona, um histórico e aconchegante município famoso, entre outros, pelas touradas. A quilometragem não é das maiores, mas o desnível e as condições do terreno são os grandes desafios dessa etapa inicial – já moldando os peregrinos e bicigrinos para enfrentar a longa jornada, física e mental, até o Norte da Espanha.

Trecho onde o peregrino, ou bicigrino, como era meu caso, deixa a GR-65 para ingressar em trilhas e estradas de terra batida. Logo depois do Collado de Bentarte estão a Fonte de Roldán e o Alto do Pepoeder

Bom, antes de começar a descrever esse grande roteiro, que espero sirva para inspirar outras pessoas a realizarem seus sonhos, importante destacar como funciona a orientação. Não precisei de nenhum tipo de mapa, aplicativo de celular ou GPS. Em todo o trajeto há setas amarelas, conchas de Vieira, totens ou placas indicando a direção a seguir. Caso a pessoa se perca, é só voltar até o último local onde viu a sinalização e retomar o trajeto na direção correta. Em toda minha peregrinação, saí da rota correta apenas três vezes, mas por falta de atenção minha. Encantando com alguma beleza natural ou arquitetura, acabei passando direto e, rapidamente, percebi que precisava voltar. A tradição das setas amarelas teve início dos anos 80 graças a intervenção feita pelo padre Elias, do Cebreiro, que dedicou sua vida a promover o Caminho de Santiago de Compostela. Elas estão em postes, calçadas, paredes, latas de lixo... Em qualquer lugar onde a pessoa pode ficar em dúvida em qual direção seguir! No trecho francês existe ainda a marcação com duas pequenas faixas horizontais, uma branca e uma vermelha.

Os bonitos e “duros” Pirineus
Quem escolhe começar Por Saint-Jean já sabe que logo de cara terá que enfrentar uma dura jornada, os Pirineus. A cadeia de montanhas que separa os dois países tem trechos bastante íngremes e, por várias vezes, as condições climáticas impedem seu acesso. No Inverno, por exemplo, a rota fica fechada. Em outras estações, quando há previsão de tempo ruim os caminhantes ou ciclistas são orientados a seguir para a Espanha por estrada, via Valcarlos. Como escolhi a Primavera, tive a felicidade de pegar um dia azul, lindo, aberto e gelado... Condições ideais para enfrentar os vários pontos com grande inclinação. Devagar e sempre, na “vovozinha” (a combinação de marchas mais leve da bicicleta), segui puxando meu peso morro acima. Até o Refúgio Orrison estão os pontos mais íngremes desse trecho. São apenas oito quilômetros até ali, mas as condições do terreno fazem muita gente escolher esse local para pernoitar. Eu fiz um lanche e segui adiante, pois ainda havia muitos morros a vencer.
Porém, nenhuma subida consegue desanimar quem está aberto ao Caminho, encantado ainda com os visuais para qualquer lado que se olhe, cenários espetaculares que têm na linha do horizonte dezenas de montanhas cobertas de neve... Que maravilha! A subida dos Pirineus foi mais dura do que eu imaginava, por conta principalmente do peso da bagagem, mas muito mais bonita do que havia tanto sonhado.


Quase no final dos Pirineus, mais um cenário inesquecível com uma linha de montanhas mais altas ainda cobertas pela neve, também em território francês
Minha ideia, inclusive, era ficar horas ali, admirando as belezas desses dois países de cima, sentindo o clima e a energia desse local. Porém, por ter saído mais tarde e mais cansado do que o previsto, como relatei na reportagem anterior, havendo ainda a preocupação com hospedagem, que relato a seguir, acabei não parando muito tempo.
Cerca de um quilômetro depois do local onde foi instalada em uma elevação de calcário uma imagem da Virgem de Biakorri, também conhecida como Virgem dos Pastores ou Virgem de Orrison, é preciso deixar a pequena estrada de asfalto (GR-65) e pegar à direita para acessar o Collado de Bentarte. Nesse ponto, tive que tirar a bagagem para empurrar a bicicleta pela primeira vez, diante da inclinação e tipo de terreno, terra com muitas pedras soltas. Entre as últimas montanhas na área da França, a característica já é bastante diferente, com as árvores sem folhas, maltratadas pelo inverno rigoroso que havia acabado de terminar. Nas proximidades do Alto do Lepoeder, ponto mais alto desse trecho, ainda havia pequeno bloco de gelo ao lado da estradinha. No horizonte, mais um cenário inesquecível com uma linha de montanhas mais altas ainda cobertas pela neve, também em território francês.


O tradicional Real Collegiata, com quase 800 anos de história, ponto quase que obrigatório para quem faz o Caminho de Santiago. Mesmo podendo esticar mais nessa etapa, por estar de bike, quis ficar ali
A Fonte de Roldán, ou Rolland, em homenagem ao sobrinho do Imperador Carlos Magno, morto em emboscada nesse local, indica que o marco da divisa entre os dois países está bem próximo. Ainda há pontos de subida pela frente, mas bem mais tranquilos em relação ao trajeto anterior. No ponto onde já se avista Roncesvalles de cima em diante, é só alegria. Hora de deixar a bicicleta descer, leve como a alma presenteada com tantas belezas e experiências até ali.

Roncesvalles e Pamplona
No primeiro dia de pedal foram 28 quilômetros e 1.403 metros de altimetria acumulada. Distância pequena e, devido ao horário, poderia esticar um pouco mais. Porém, queria me hospedar no albergue da igreja Real Collegiata, com quase 800 anos de história. Beleza, história e tradição. Não dá para passar direto por um lugar desses. Missão cumprida em um final de tarde bastante gelado e com direito ainda a outro momento icônico do Caminho de Santiago: Fica em Roncesvalles a placa mais famosa indicando quanto ainda falta para a catedral principal, 790 quilômetros. Perdi as contas de quantas vezes sonhei em estar nesse local.
Ainda em Roncesvalles, um jantar peregrino no La Posada, dividindo a mesa com gente de várias partes do mundo. Uma noite bem dormida, de bom descanso para encarar a etapa seguinte, até a cidade de Pampolona. A promessa era que seria um dia bem tranquilo, com muitas descidas. Porém, não foi isso que se apresentou nesse trecho, havendo poucas informações sobre a grande quantidade de subidas com grandes pedras soltas, características que impedem pedalar uma bicicleta com peso fora do eixo de centro. Empurrei muito mais que imaginei que precisaria fazer. Mas estava no Caminho de Santiago de Compostela, seguindo à risca a rota. Por conta das condições das trilhas, criadas inicialmente para quem está a pé, muitos ciclistas seguem pelas estradas, asfaltadas e bastante planas em vários pontos. Mas aí, a meu ver e de muitos, se trata apenas de um “passeio de bicicleta pela Europa”.


Em Roncesvalles, a famosa placa que indica quando ainda falta para Santiago de Compostela. Durante minha preparação, sonhei várias vezes com esse momento
Até Pamplona foram 44 quilômetros, com 769 metros de altimetria acumulada e várias pequenas e bonitas localidades atravessadas, como a simpática e convidativa Zubiri. Em alguns trechos, a trilha passa ao lado do esverdeado Rio Arga. Faltando cerca de oito quilômetros para o fim dessa segunda etapa, em Arre, encontrei um casal de brasileiros, residente no Mato Grosso, que informou “que não havia quase mais nenhuma vaga em Pamplona”. Dias antes de iniciar minha jornada soube de saída recorde de peregrinos de Saint-Jean, três vezes acima da média normal. “Estão todos em Pamplona”, pensei. Preocupado, porquê queria pernoitar por lá, aumentei o ritmo do pedal. No primeiro albergue que bati, lotado. No segundo, bem ao lado da Catedral de Santa Maria, consegui uma das últimas vagas. Ufa! Poderia conhecer um pouco a cidade que tem o centro histórico localizado dentro dos limites de uma grande muralha, tradicional ainda pela festa de São Firmino, quando os touros tomam as ruas, no mês de julho.
Na próxima semana vou falar sobre Estella, Logrono e a região de Burgos, onde se inicia a Meseta Central e a característica muda totalmente. O projeto “Teresópolis no Caminho de Santiago de Compostela” teve o apoio da Trilhas & Rumos, Loja TopSpin, Corpo & Ação, Cycle São Cristóvão e jornal O Diário.



Em Pamplona, a famosa escultura em homenagem as tradicionais touradas dessa cidade espanhola. Em julho, na Festa de São Firmino, as ruas ficam tomadas de turistas correndo dos animais

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