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Depois de Santiago, hora de conhecer o "fim do mundo"

Data: 05/08/2019

A bonita silhueta das torres e cruzes da catedral de Santiago de Compostela vista do Caminho de Finisterra

Nesta edição do “Mochileiro” abro o último capítulo do meu diário de viagem pelo mágico Caminho de Santiago de Compostela, milenar rota que anualmente conduz mais de 300 mil peregrinos, por diversas vias, até a catedral onde estão os restos mortais do Apóstolo Tiago Maior, na Espanha. A escolhida por mim foi a mais tradicional, a francesa, a partir de Saint Jean Pied Port, pedalando 830 quilômetros por estradinhas de terra batida, trilhas, caminhos asfaltados ou pedregosos, enfrentando desde muito sol a neve e vivendo a maior experiência espiritual que já tive até então. Confesso que, mesmo três meses depois, ainda estou “viajando” pelo Caminho. Um pedacinho de mim ainda está lá e o que voltou para o Brasil já sonha com uma nova incursão na mesma região. Minha última “aventura” em terras espanholas aconteceu um dia depois de chegar à Santiago – e me emocionar bastante ao ingressar na Praça do Obradoiro. Objetivo concluído, agora pedalaria “mais leve” até Finisterra, ou Finisterre, o “fim da terra”, “fim do mundo” na época da Idade Média. Esse município, localizado na província de Coruña, tem grande relação com a rota jacobeia, principalmente com um dos seus símbolos, a concha de vieira. Conta a história que, nos primórdios da peregrinação, os caminhantes seguiam até o mar para buscar uma concha e, com ela, comprovar o feito. Também à frente do oceano Pacífico Norte manda a tradição queimar alguma peça de roupa utilizada nas longas semanas de caminhada – ritual que também acontece em outro ponto naquela região, Muxia.


Deixei Santiago de Compostela para trás bem cedo, pois sabia que seria um dia longo. Oficialmente, são 89 quilômetros de distância até Finisterra, mas, como em todas outras etapas, a previsão era passar um pouco disso. Também fiz como nos 14 dias anteriores, optando em seguir a rota demarcada e sinalizada para os peregrinos e não cortando caminho por estradas asfaltadas, como fazem muitos ciclistas. O dia começou gelado mais uma vez. Após pouco tempo pedalado, estacionei minha “magrelinha” rapidamente para olhar para trás e registrar a silhueta das torres e cruzes da imponente catedral que havia conhecido no dia anterior.
A primeira grande parada aconteceu em Puente Maceira, com 15 quilômetros pedalados, para registrar a passagem medieval sobre o rio Tambre e onde há também um antigo sistema de captação de água. Do outro lado, a pequena capela de San Blas também é um convite à fotografia e contemplação. Nesse local encontrei um grupo de turistas, entre eles um australiano que ficou surpreso ao saber que pedalaria até Finisterra naquele dia. “Não é possível. É longe e está pesado”, disse ele, me presenteando com um pequeno coala de pelúcia e desejando boa sorte.

Café tradicional
Logo após o pequeno povoado, o Caminho de Finisterra passa ao lado do esverdeado rio Tambre, característica marcada pela água de degelo. Poucos quilômetros depois, em Negreira, parei para um café. Em toda a cicloviagem realizei o mesmo ritual: quando não havia desayuno nos albergues, seguia pedalando até o dia esquentar um pouco e na busca de um bom lugar para a primeira refeição do dia. Ali já dava para retirar casaco e calça, estando ainda bem longe de concluir minha atividade.
A opção em seguir pela rota tradicional significou enfrentar um dia duro de pedal, com muitas subidas, trechos em trilhas com pedras soltas e locais ermos. Pelo asfalto seria bem mais fácil, ainda mais se levando em consideração o peso da bagagem na parte de trás da bicicleta. Mas aí não estaria no “Caminho de Finisterra”. Seria “apenas um pedal pela Espanha”. Vilaserio, Lagos, Ponte Olveira, Hospital... Foram dezenas de localidades “desbravadas” em um dia que parecia não terminar.

Olha, o mar!
Logo depois de Hospital, o cruzamento das rodovias DP-3404 e DP-2302 indica duas possibilidades: Para esquerda, 26 quilômetros até Muxia. Para a direita, 29 até Finisterra. Segui minha programação, apesar da vontade de tomar a rota contrária e conhecer o local onde foi gravada uma das últimas cenas do filme “The Way”, a mais bonita produção cinematográfica sobre o Caminho de Santiago de Compostela.
Pouco depois de ingressar no liso e sinalizado asfalto da 2302, saída para a direita. Novamente estrada de terra e pedrinhas soltas, mas com um visual espetacular de cume de montanha, lembrando o colorido que havia encontrado dias atrás na região da Cruz de Ferro. Mais um motivo para comemorar a escolha de continuar seguindo as setas amarelas e totens com a concha de vieira. Foram alguns quilômetros nesse tipo de terreno, até o momento onde se avista o mar pela primeira vez, em CEE.
Sorriso no rosto, hora de deixar a bicicleta descer até a orla, passando nas proximidades da Praia da Concha. Mas a beleza da água azul claro, cristalina nas bordas, esconde um trecho complicado para ciclistas na saída desse povoado para Sardiñeiro de Baixo. Escada estreita, pedras soltas e uma rua muito íngreme. Faltavam poucos quilômetros para Finisterra, mas a rota tradicional dos caminhantes continuava desafiadora para o bicigrino aqui.

Mais um presente
Diante das condições de terreno, aliada ao peso da bicicleta/bagagem e um dia bastante quente, sem esquecer as várias paradas obrigatórias para fotografar ou simplesmente contemplar as belezas da região, cheguei a Finisterra por volta das 18h, após percorrer 95 quilômetros e 1.853 metros de altimetria. Imediatamente procurei um albergue, deixando a maior parte dos equipamentos para pedalar os três quilômetros que faltavam, do povoado até o Cabo de Finisterre, o farol, o ponto mais alto e de onde se avista apenas o Pacífico Norte. Lá nasceu a denominação “fim do mundo”. A linha no horizonte indicando “apenas água e mais água” fazia parecer, naquela época, que “não havia mais nada dali para frente”. Fazia sentido, assim como faz muito sentido nos dias de hoje buscar caminhos espirituais como esse.
Havia me superado diversas vezes, antes e durante o Caminho, havia realizado meu sonho de fazer uma cicloviagem, mas ainda ganharia mais um presente. Pela primeira vez, nos 15 dias de pedal, tive a felicidade de assistir a um pôr do Sol. E que despedida do astro-rei. Aquele lindo dia azul lentamente foi ganhando os tons alaranjados e quentes. A dança das pequenas flores nas encostas do farol, balançando ao gosto do vento, completou a cena digna de filme. Já podia desmontar minha bicicleta, completamente realizado, mas ainda sem imaginar como essa viagem continuaria permeando meus sonhos e servindo para inspirar outras realizações tanto tempo depois.

Indescritível
Nas últimas semanas registrei aqui apenas um pedacinho do que vivi entre França e Espanha. Mesmo buscando mostrar detalhes e tentar colocar em palavras meus sentimentos, é impossível descrever a grandiosidade “del Camino”. Como digo a todos que me param na rua para perguntar sobre a viagem: Foi espetacular, a maior e mais marcante experiência que tive até hoje. Coloque sua bicicleta na estrada, ou se não é adepto das duas rodas, calce suas botas e vá percorrer a milenar rota de peregrinação. A francesa, a portuguesa, a do norte, a primitiva... Escolha uma e vá, mas de coração aberto. Ria, chore, cante, dance... E depois me diga se é fácil colocar no papel essa explosão de emoções...
No total pedalei 934 quilômetros, com mais de 12 mil metros de altimetria acumulada. Pode parecer muito, mas é infinitamente pequeno diante de tantos ganhos ao longo desse percurso. O projeto “Teresópolis no Caminho de Santiago de Compostela” teve o apoio da Trilhas & Rumos, Cycle São Cristóvão, Loja TopSpin, Corpo & Ação, Jornal O Diário e Diário TV.

 

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