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Cruz de Ferro, ponte das batalhas e o castelo templário

Data: 12/07/2019

Trechos com muitas flores, mas também muitos pontos íngremes com grandes pedras soltas, entre Astorga e El Acebo. É difícil, mas é bonito demais. Assim é o Caminho e assim pode ser a vida - Marcello Medeiros

No capítulo anterior da série especial sobre o Caminho de Santiago de Compostela, falei sobre a riqueza da arquitetura da cidade León – onde cheguei após um desafio de 120 quilômetros atravessando a meseta central espanhola embaixo de um Sol escaldante. Hoje, abro meu diário de viagem para relatar as etapas de número nove e dez, com a distância já bem menor para o objetivo do peregrino e muitas riquezas históricas e simbolismos na milenar rota jacobeia. As terras de leão começam a ficar para trás, agora em um ritmo de pedal bem mais tranquilo, de cicloviagem mesmo, com o coração aberto para os presentes que poderia receber se assim me comportasse nesse caminho espiritual. O destino é Astorga, onde está localizado o Palácio Episcopal de Gaudí, além de outras belezas.  Entre León e essa pequena cidade são apenas 57 quilômetros de distância e menos de 500 metros de altimetria acumulada, combinação perfeita para um dia de pedal sem pressa e de olho nas riquezas naturais e históricas da região.
E assim segui em mais uma gelada manhã. Porém, como demorei um pouco mais para deixar o local onde havia passado a noite – como relatei na coluna anterior, aproveitei para conhecer o que não havia tido tempo no dia anterior – acabei tirando a calça e casaco ainda em León, com o Sol já mais alto no céu quando iniciei a pedalada. Há um pequeno desnível na saída da cidade, mas logo as estradas e trilhas ficam bem planas e convidativas ao relaxamento em duas rodas. A primeira grande parada aconteceu 36 quilômetros depois, em Hospital De Órbigo. Fica nesse povoado a maior e, historicamente falando, uma das mais importantes pontes do Caminho. 
Ela é conhecida como “paso honroso” por ter sido cenário de várias batalhas no século XV. Como prova de amor, em 1434 o cavaleiro leonês Suero de Quiñones realizou no local um torneio onde todos que precisassem atravessar o rio nesse ponto teriam que enfrenta-lo ou, caso não o fizessem, depositar uma luva como sinal de covardia. Em um mês, o nobre da cidade de Léon superou cerca de 300 cavaleiros. Além da história, a beleza da arquitetura chama a atenção. Fiquei um tempo ali, realizado por mais uma etapa vencida e imaginando as batalhas de tantos séculos atrás.Bela imagem em Astorga
Parei um pouco depois de Hospital de Órbigo para um lanche rápido. O Sol estava forte, com céu azul. Entre esse povoado e Astorga há um pequeno trecho com maior inclinação, meio deserto, o maior responsável pela altimetria da etapa. No ponto mais alto já se avista a cidade objetivada e as montanhas na região do Monte Teleno, que seriam pano de fundo da etapa seguinte.

A bonita Astorga

Cheguei à simpática Astorga no início da tarde. A pequena cidade tem dois grandes belos prédios, que encantam e atraem gente de todo o mundo. Inaugurada em 1471, a catedral é dedicada a Santa Maria e, além da riqueza em detalhes e imponência pela altura das suas torres, chama atenção pela coloração diferenciada, um pouco avermelhada, das pedras utilizadas na construção. Executado entre 1889 e 1913, o Palácio Episcopal fica bem ao lado, mais uma impressionante obra de Gaudí ao estilo do modernismo catalão. Tanto a fachada principal, cujo prédio tem quatro torres de canto cilíndricas, quanto o interior, são um convite a se passar um bom tempo admirando e logicamente fotografando. Apresentando a credencial de peregrino, o visitante paga a metade do valor do ingresso.

Já com saudade do “arroz com feijão”, pretendia dormir em um albergue brasileiro. Porém, acabei não encontrando o endereço e optei em ficar no municipal Siervas de Maria, onde os que seguem para Santiago de Compostela são carinhosamente recebidos pelos hospedeiros. Nesse hostel encontrei vários compatriotas, entre eles mais uma vez o paulista André. Na manhã seguinte, saímos juntos em direção a Ponferrada.

Emoção na Cruz de Ferro
O pedal começou em horário de praxe. Dia quente, similar à temperatura que chegaria o coração ao subir o Monte Irago para conhecer dois ícones do Caminho. As ruínas de Foncebadon, citadas inclusive no “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, e a Cruz de Ferro. O primeiro é uma localidade que ressurgiu após o crescimento da busca pela rota milenar, a partir dos anos 80. Na publicação do brasileiro, é o local onde ele enfrenta seus demônios, representados em um cachorro de grande porte - referência  justamente ao período onde Foncebadon ficou abandonada e tomada pelos animais, causando temor aos que atravessavam a região a pé.
O segundo, o ponto mais alto de todo o Caminho, aproximadamente 1530 meros. Devido à posição geográfica, a Cruz de Ferro foi instalada para orientar os caminhantes e moradores da região no período de Inverno, quando fica tudo coberto pela neve. Porém, ganhou um simbolismo e peso enormes no Caminho de Santiago. Ela é cercada de pedras, oriundas de várias partes do mundo. As rochas representam os pesos, os problemas, tudo que precisa ser deixado para trás para a vida seguir mais leve. Levei um fragmento do meu quintal. Fiquei bastante emocionado e relembrei de tudo até ali e das pessoas importantes em minha vida antes de lançar a pedrinha. Queria muito fazer isso.
Os trechos antes e depois da Cruz são extremamente belos, coloridos e rochosos... Descida dura e lenta na etapa final, antes de El Acebo, mas sempre pelo Caminho. Na Ermita del Santo Cristo, pouco depois de Astorga, o voluntário que carimbou nossas credenciais insistiu que descêssemos “por la carreteira”. Sabia da aspereza e dificuldade devido à inclinação e muitas pedras grandes e soltas. Mas, se fosse fácil e pela estradinha asfaltada, não estaríamos seguindo os passos de Santiago. Nessa etapa foram 55 quilômetros e 861 de altimetria.


Um castelo no caminho

Aproximadamente 600 quilômetros pedalados e tudo seguindo dentro da programação, consegui manter um dia de folga em Ponferrada. Havia previsto esse “day-off” por dois motivos. Primeiro, sabendo da existência de um albergue voltado para o bicigrino, com oficina, garagem e lava-jato, o Guiana Hostel, seria prudente dar uma geral na minha companheira de viagem. Segundo, porque fica nessa cidade o imponente Castelo dos Templários. Construído entre os séculos XII e XV, teve como um dos objetivos principais a proteção dos peregrinos que seguiam para Santiago. Hoje é dividido em partes históricas e modernas, com exposições relacionadas aos templários, o Caminho e o cristianismo. Com o dia livre, consegui visitar a majestosa construção sem pressa, além de deixa minha bicicleta limpa e revisada, com direito a um “remendo” no bagageiro”, para o restante dessa aventura espiritual.
A etapa seguinte seria um grande desafio, o maior psicologicamente falando. A última grande montanha, com direito a chuva, frio e neve, o  Cebreiro. O projeto “Teresópolis no Caminho de Santiago de Compostela” teve o apoio da Trilhas & Rumos, Cycle São Cristóvão, Loja TopSpin, Corpo & Ação, Jornal O Diário de Teresópolis e Diário TV.

 

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