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Alcoolismo se espalha por Praças e é incentivado em eventos

Data: 08/06/2019

A psicóloga Gabriela Henrique, especialista em Dependência Química, esteve em nossos estúdios falando do alcoolismo e como nossa sociedade precisa estar atenta ao mal

 

Anderson Duarte

“Hoje eu dei ‘PT’ de Corote!”, “Vamos esquentar na P.O. antes de sair”, “Não lembro de nada de ontem!”, essas frases disseminadas em muitos grupos de WhatsApp da cidade mostram que beber muito e cada vez mais cedo é sinônimo de sucesso entre as tribos jovens teresopolitanas. E com certeza, você já deve ter escutado muita gente dizer que beber cerveja artesanal é coisa de quem é descolado e moderno, ou até que conhecer vários tipos de bebida e ter experimentado de tudo um pouco é sinônimo de inteligência e requinte. Mas toda essa naturalização do consumo do álcool e a relação da bebida com o empreendedorismo, com o sucesso empresarial, e a aceitação da juventude, escondem na verdade uma epidemia mundial responsável pelo fracasso de milhares de famílias e a destruição de centenas de milhares de lares em nosso país. O alcoolismo é uma doença silenciosa, de efeito devastador e que em Teresópolis encontrou um aliado e tanto na sua proliferação, o próprio poder público. A capital nacional da cerveja artesanal como esperam muitos, pode também receber em breve o triste título de capital símbolo da incidência do alcoolismo.
A Praça Olímpica, ou P.O., como dizem os jovens teresopolitanos, outrora já foi símbolo da prática esportiva, mas hoje, concentra jovens, cada vez mais jovens, precocemente inseridos no mundo do consumo de bebidas alcoólicas e em estágios avançados deste consumo, perpassando pelo abuso rotineiro, um degrau antes da dependência. Com lares desestabilizados pelo desemprego, pelo subemprego e pela falta de perspectivas da população adulta teresopolitana, muitos destes adolescentes tem o primeiro contato com a bebida ainda em casa, com seus pais e parentes, ratificando o ciclo vicioso da doença que se espalha com muita velocidade pelo seu fácil acesso e preço reduzido. E ainda entram nesta equação nefasta em nosso município outros aspectos nocivos, o pretenso título de cidade propensa ao consumo do álcool e a recorrência de eventos que enaltecem, incentivam e propagam esse tipo de consumo, inclusive nas portarias de escolas. A resposta à doença depende de motivação pessoal, da atração do dependente em relação a sua cura, e da mobilização familiar em muitos casos.
Para tal, uma instituição internacional tem se mostrado indispensável na recuperação de muitos cidadãos entregues ao vício e todos os seus malefícios. O Alcoólicos Anônimos, ou simplesmente A.A. como são conhecidos mundialmente. Como não podem aparecer em virtude da preservação da identidade dos seus participantes, conversamos com a psicóloga Gabriela Henrique, especialista em Dependência Química, que esteve em nossos estúdios nesta sexta-feira, 07, falando do problema e como nossa sociedade precisa estar atenta ao mal. Uma das dúvidas e curiosidades mais comuns com relação ao A.A. está no seu método de atendimento e dinâmica de trabalho. “O foco do método é contar sua história para outros na mesma situação e ouvir a deles e isso ajuda muito porque a dependência vira um problema de todos, é na verdade uma irmandade, onde todos compartilham o problema e se apoiam na recuperação. O consumo de álcool está ligado a diversas consequências para o indivíduo que o consome, para aqueles que estão à sua volta e para a sociedade como um todo, mas principalmente para as famílias, que também adoecem junto com o dependente”, explica Gabriela.
A quantidade de denúncias e reclamações que recebemos a respeito do abuso do consumo do álcool entre os jovens aumentou significativamente nos últimos anos, com relatos diversos de adolescentes desmaiados em vias públicas e festas onde o consumo liberado das bebidas é o principal incentivador do evento. Mesmo com muitas restrições a publicidade deste tipo de produto e com a proibição irrestrita em ambientes onde a presença de menores é liberada, muitos são os casos de desrespeito. “Hoje, no Brasil, causa grande preocupação o fato de os jovens começarem a beber cada vez mais cedo e as meninas, a beber tanto ou mais que os meninos. Pior, ainda, é que certamente parte deles conviverá com a dependência do álcool no futuro. Isso não é por acaso, o consumo de bebida alcoólica é aceito e até estimulado pela nossa sociedade. Se dissermos a um pai ou uma mãe que seu filho está fumando maconha, ou até que já tenha experimentado ecstasy numa festa, isso é motivo de apreensão ou até desespero por parte dos pais, entretanto, se dissermos que esses mesmos filhos beberam numa festa, com certeza grande parte dirá que é normal, que todo mundo bebe mesmo”, explica Gabriela.
Outro problema encontrado em nossa pesquisa com relação ao público jovem está na propaganda dirigida a este segmento da sociedade, hoje muito mais intensa e que conta até com produtos desenvolvidos especialmente para essa faixa etária, como as sodas alcoólicas que, apesar de aparentemente fraquinhas, contêm teor alcoólico muito mais elevado do que a cerveja, e a popular catuaba, igualmente nociva do ponto de vista do potencial de dependência. Vivemos num mercado descontrolado, estrategicamente favorecido pela indústria do álcool e com mais de um milhão de pontos de venda em todo país, um para cada 180 mil habitantes, a propaganda é bastante intensa, o preço é baixo e prevalece a falta de controle sobre a comercialização da bebida para menores de idade.
Como mostrado em diversos estudos pelo país, ao contrário da cultura de prosperidade e potencial gerador de empregos divulgada e atribuída recentemente à indústria da bebida, o que se vê mesmo é a ligação entre o uso abusivo de álcool e o desemprego. O uso desenfreado apresentou sensível aumento em sua incidência após a tragédia de 2011 em nossa região, assim os municípios atingidos experimentaram ao longo dos anos que se seguiram a catástrofe o aumento dos casos de depressão, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e também do alcoolismo. O que se viu foi o dinheiro gasto com o álcool atuando no desfalque do orçamento doméstico, e isso em lares carentes e até mais abastados, sem se importar com a classe social atingida. Evidentemente essas consequências econômicas do uso de álcool são mais significativas em regiões de elevada pobreza, elevando a doença ao status de epidemia social, sendo presente também em um número significativo de casos de violência doméstica.

 

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