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Três jovens estudantes assassinadas e nenhum preso

Data: 03/03/2018

?A gente fica numa situação muito difícil. Cada vez que é marcado um julgamento desses, você revive tudo isso e depois percebe que não se chega a um fim?, enfatiza Sônia Ramos, madrasta da segunda vítima - Foto Marcello Medeiros

Marcello Medeiros

Entre outubro de 2000 e abril de 2011, os teresopolitanos viveram momentos de medo e muita tensão. Nesse período, três jovens estudantes, todas menores de idade, foram brutalmente assassinadas. Seus corpos foram encontrados em locais ermos, todos com marcas semelhantes e indicando que haviam sido mortas da mesma maneira, por estrangulamento. Os crimes estamparam as capas de jornais, suposições diversas foram feitas sobre um suposto serial killer e rituais demoníacos que colocariam outras adolescentes em risco. As iniciais de Iara Santos, Fernanda Venâncio e Cláudia Cahet, alunas do Edmundo Bittencourt e Euclides Cunha, fariam parte da palavra “lúcifer”, gerando a preocupação que as meninas cujos nomes começassem com outras letras que completariam o nome do anjo decaído seriam raptadas e brutalmente assassinadas da mesma maneira. Somente após o corpo da última jovem ser encontrado, no bairro de Pimenteiras, que as investigações começaram a tomar um rumo diferente. Cláudia trabalhava entregando panfletos para uma família de ciganos que mantinha uma casa de búzios e tarô na Avenida Alberto Torres, o Portal dos Deuses, nas proximidades do Hospital São José, sendo apontado como suspeito um dos seus integrantes, Paulo Bianchi Yanovich. Ele chegou a ser preso porque teria sido reconhecido por uma sobrevivente, uma quarta vítima que por pouco não teria tido o mesmo fim das outras três. Porém, mesmo com muitas evidências e depoimentos contrários à defesa do representante do povo nômade, ele foi solto. O julgamento foi marcado e desmarcado diversas vezes na última década.
“Esses crimes ficaram no limbo. Existem testemunhas que comprovam que foi ele, mas tem sempre hábeis advogados que manipulam tudo e ele não vai a júri. É júri popular e sempre que é marcado sempre conseguem desmarcar e marcar para uma data distante. Com isso estamos perdendo testemunhas, que estão morrendo, familiares que estão morrendo, daqui a pouco não vai ter mais ninguém no processo. Ele tinha 21 anos na época, está ficando velho, daqui a pouco ele mesmo morre e não será julgado. E como fica isso? É assim que as pessoas perdem a fé na justiça”, enfatiza Sônia Ramos, madrasta da jovem Fernanda, que está na expectativa que a próxima data de julgamento seja respeitada: 19 de março, segunda-feira da semana que vem.
Sônia nunca deixou de buscar informações sobre o andamento do processo e qualquer situação envolvendo mortes parecidas com as das três teresopolitanas. Ela se dedicou tanto aos casos que acabou fazendo um curso de detetive particular. E o trabalho de apuração por conta própria acabou rendendo bons resultados – como a informação de que carro que teria sido utilizado para sequestrar Fernanda pertenceria a Bianchi.  “Empenhei onze anos da minha vida seguidos sem fazer absolutamente nada a não ser investigar. Se botar o processo no chão já tem mais de um metro de altura de tantas pastas, tantas denúncias. Os próprios familiares acusam ele, existem essas acusações formais, feitas dentro do MP, na minha presença, que estão no processo. E o que adiantou? Se sua sogra diz que você assassinou alguém e mostra provas que desde criança é perturbado, que costumava degolar, esfaquear bonecas, é indício que já tem índole assassina. Primos, tios, todos denunciam, não é possível que toda sua família esteja errada e só você está certo”, relata. 

Histórias sem fim
Apesar de na época ter sido apontado inicialmente como suspeito das mortes das três estudantes, Bianchi só responde por um dos crimes de homicídio denunciados pelo MP, o da jovem Claudia.  Investigando a ligação entre os casos, na ocasião foi coletado sêmen no corpo de uma das vítimas. Preso ao ser reconhecido, a Justiça pediu coleta do sêmen de Paulo para confronto de DNA. O resultado foi negativo, mas o perfil genético mostrou que a amostra pertencia a alguém de sua família. Mas a evidência não foi suficiente para ampliação da investigação. “E a Justiça, onde fica? Cadê os Direitos Humanos? Nunca vimos, onde estão? O que a Promotoria está fazendo? Eles (os ciganos) têm hábeis advogados porque têm dinheiro e as famílias das vítimas não têm. Por que a promotoria permite que se marque tantas vezes um julgamento que deveria ter acontecido há tanto tempo?”, questiona Sônia.
Quase duas décadas depois ela ainda lembra com carinho da enteada, quem criava como filha e ajudava a construir seus sonhos. “É bem angustiante, porque quando você cria uma criança intuito que cresça, seja feliz, tenha vida próspera. Ela estava terminando o segundo grau, e queria ser odontologista da Marinha. Aí simplesmente sai para a escola e acaba tudo assim, em fração de segundos. A gente fica numa situação muito difícil. Cada vez que é marcado um julgamento desses, você revive tudo isso e depois percebe que não se chega a um fim. Isso não acaba. Enquanto isso não chegar realmente ao fim vai parecer que a Fernanda não foi enterrada”.

Cidade em pânico
À época, antes das suspeitas sobre a família de ciganos, chegou-se a falar que havia um maníaco em Teresópolis e o medo tomou conta das famílias. Possíveis rituais satânicos envolvendo jogos de RPG também foram citados e um “vampiro” preso. Com o pânico, qualquer demora para chegar em casa era dada como desaparecimento e um possível novo ataque.
No final dos anos 2000, o Juizado de Menores da Comarca determinou à 110ª DP o ‘recolhimento’ de menores que estivessem trajando roupas pretas. Os ‘suspeitos’ deveriam ser encaminhados à delegacia e colocados à disposição do juizado. “Qualquer menor de idade com roupa que caracterize ser integrante de seita ou religião estará sujeito ao recolhimento”, informou a polícia naquele momento. Também em novembro daquele ano, a polícia recebeu denúncia de moradores do Recanto dos Artistas, apontando para o encontro de um corpo, possivelmente, mais uma vítima do maníaco que anda à solta pela cidade. Segundo o informante, poderia estar enterrado no local o corpo de uma vítima, possivelmente do maníaco. Tratava-se de um cão da raça pastor alemão.

Casos em outras cidades
Em dezembro de 2007 a Polícia Civil de Minas Gerais prendeu uma vidente que teria orientado um homem a matar duas crianças em rituais macabros com a intenção de ajudar a companheira a engravidar em Ouro Preto. Autuada no local onde dava consultas, na cidade de Mariana, ela seria parente de Bianchi. Em julho de 2006, a madrasta de Fernanda Venâncio ajudou nas investigações da morte da pequena Giovanna dos Reis Costa, 9 anos, em Quatro Barras, Paraná. Foi apontado como suspeito da morte um jovem de 18 anos que também seria da família de Bianchi. Entre 1999 e 2000, em Belo Horizonte, 12 adolescentes e mulheres, com idades entre 11 e 34 anos, foram assassinadas em circunstâncias muito parecidas com as de Teresópolis. Estas pessoas possuíam o mesmo biotipo das três meninas mortas na cidade - cabelos longos e morenas. As quatro primeiras vítimas de Belo Horizonte foram mortas em quartas-feiras, outra semelhança com os crimes ocorridos por aqui.

 

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